Em O Último Pub (The Old Oak), o diretor Ken Loach entrega ao público mais uma vez uma narrativa forte, na qual não há mocinhos ou vilões, mas sim piadas ácidas, diálogos potentes e monólogos inquietantes capazes de arrancar lágrimas até dos menos sensíveis. A trama acompanha os habitantes de um povoado abandonado na Inglaterra entrando em conflito com os refugiados sírios que chegam ali realocados pelo governo. Em meio às tensões, o proprietário de um pequeno pub tenta manter seu bar aberto ao mesmo tempo que inicia uma amizade inesperada com a jovem síria Yara (Ebla Mari). Este é o terceiro filme de uma trilogia sobre o nordeste inglês que começou com os longas Eu, Daniel Blake, e Você Não Estava Aqui. Por meio de uma fotografia melancólica, o diretor também constrói a emoção. Além disso, o fato de Dave Turner, o protagonista, ter sido bombeiro durante quase 50 anos antes de começar a trabalhar como ator e de Mari ser uma atriz refugiada síria, torna a última obra de Loach um mergulho profundo e interessante nos dilemas humanos inerentes a qualquer nacionalidade.
A crise dos refugiados que eclodiu nos anos 2010 não é novidade para ninguém. Milhares de pessoas, principalmente indo do Oriente Médio para a Europa, morrem na travessia ou até mesmo em campos criados arbitrariamente por países como destino para essas pessoas sem uma terra para chamar de sua. Sem casa. Mas a crise dos refugiados é algo anterior, com feridas que não cicatrizaram na memória. ‘Flee’ mostra um pouco mais disso. Dirigido com habilidade por Jonas Poher Rasmussen, o filme indicado em três categorias do Oscar 2022 conta a história de um homem afegão que tem um passado que prefere esquecer. Afinal, entre sua infância e adolescência, teve que conviver com governos violentos, o sumiço do pai, terrorismo e, enfim, uma fuga desesperado para salvar a própria pele. Sem poder mostrar a identidade desse homem, e sem nenhum tipo de material de sustentação além do depoimento deste protagonista-entrevistado, Rasmussen aposta na animação. A partir de traços sóbrios, o cineasta reinventa e conta a história desse homem a partir de suas memórias e das percepções imagéticas da criação do longa, sempre protegendo os retratados. Há força na trama, mostrando como há histórias potentes a serem contadas para além da visão ocidental da nossa jornada.